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A “Madeira Manejada”

A “Madeira Manejada”


O conceito de madeira manejada ainda é confuso para o consumidor, o cidadão e até o próprio agente de decisão política. Porém, trata-se de um conceito que está relacionado a todos nós, diretamente e indiretamente em nossas atuações diárias. Esse texto pretende contribuir no esclarecimento sobre o conceito de “madeira manejada”.


 Uma madeira oriunda de “Floresta Manejada”
A primeira vista, nada diferencia uma madeira manejada de outra madeira comum para o comprador. Aparentemente, uma cadeira de madeira maciça manejada não se diferencia de uma cadeira feita de madeira não manejada, ou seja, madeira manejada é simplesmente madeira.


Mas então, o que faz a diferença?
A diferença está na origem da madeira. Uma madeira manejada é oriunda de uma floresta manejada.


Uma floresta manejada é uma floresta cuja forma de exploração permite manter os fluxos de produtos e serviços oferecidos.


Cada vez mais se toma conciência dos serviços oferecidos pelas florestas nativas:


a manutenção da biodiversidade animal e vegetal;
a contribuição na estabilização do clima através do seqüestro de carbono e da evapotranspiração;
o sustento das comunidades ribeirinhas e indígenas;
....
Os produtos oferecidos pelas florestas nativas mais conhecidos são: peixes, animais, frutas, borracha, óleos, cipos ... e madeira.


A madeira manejada é uma madeira que foi extraida da floresta através de um planejamento cuidadoso e com uso de técnicas de exploração de baixo impacto. Esse planejamento da extração da madeira se concretiza num plano de manejo florestal. No plano de manejo se decide, por exemplo, quais espécies serão extraidas, quais árvores serão cortadas e quais ficarão para garantir a regeneração da floresta, como as árvores vão ser derrubadas e as toras arrastadas, ocasionando um menor impacto ao meio ambiente.


 Uma madeira que contribui para “manter a floresta em pé”
Extrair madeira da floresta pode contribuir para manter a floresta em pé?
Um paradoxo aparente que deve ser explicado.


Nas décadas passadas, o desmatamento contínuo das florestas nativas da Amazônia para tirar madeira, instalar cultivos ou criar gado, foi um fato. Por razões históricas (criação do pólo industrial de Manaus) e logísticas (poucas estradas), as florestas do Amazonas ainda foram pouco desmatadas. Porém, basta ver um mapa do “arco do desmatamento” para observar que a pressão sobre as florestas nativas no Amazonas esta crescendo.


Diante dessa situação é possível assumir duas posturas clássicas:



uma que acredita não haver alternativas para evitar o desmatamento, e, até, acredita que a Amazônia deveria tornar-se o graneiro do mundo (inaceitável, quando se considera as conseqüencias socio-econômicas, ambientais e climáticas);
outra que entende que o Estado deve garantir que ninguém toque nas florestas (irrealista, quando se lembra que o Estado tem 153 milhões de hectares, e que tem comunidades que moram nas florestas).


Uma postura alternativa consiste em promover o uso sustentável da floresta por parte e em benefício de seus moradores. Essa postura baseia-se:


na hipótese de que os moradores, tendo um interesse econômico na extração contínua de riquezas da floresta, serão diretamente incentivados para que cuidem da floresta;
nas experiências em curso que demostram que é técnica e economicamente possível usar a floresta de forma sustentável;
no pressuposto de que o poder público pode criar um ambiente jurídico legal e socio-econômico que incentive e viabilize a adoção dessas práticas sustentáveis.
Com tais pressupostos, a difusão do manejo florestal sustentável pode ser vista como uma ferramenta poderosa em prol da defesa da floresta, e a valorização no mercado da madeira manejada se torna uma condição e um vetor de proteção da floresta.


 Madeira legal, madeira manejada, madeira certificada
O cidadão é freqüentemente levado a confundir-se com várias “categorias” de madeira. Qual é a diferença entre madeira legal, madeira manejada, e madeira certificada?


A lei prevê duas modalidades de exploração da madeira: o desmatamento autorizado, e o manejo florestal.


O desmatamento pode ser autorizado pelos órgãos ambientais em áreas destinadas a instalação de cultivos ou pastos, sempre e quando fica fora da área de reserva legal da propriedade (correspondente a 80% da área total). A madeira oriunda de desmatamento autorizado é legal, somente. A madeira de desmatamento autorizado não contribui para manter a floresta em pé. O custo de produção da madeira de desmatamento é geralmente baixo.


O manejo florestal é a outra modalidade legal de exploração da madeira. É regulamentado por várias leis, decretos e instruções normativas. Produzida com base em normas e técnicas de baixo impacto ambiental, a madeira manejada contribui para manter a floresta em pé. O custo de produção da madeira manejada é geralmente um pouco mais alto do que o da madeira de desmatamento, devido à elaboração do plano de manejo.


A certificação é atribuida por órgãos certificadores independentes, sendo destinada a detentores de planos de manejo que respeitam uma série de critérios socio-ambientais mais exigentes, tais como: os relacionados com o respeito dos direitos de posse da terra, com os direitos das comunidades e dos povos indígenas, bem como no atendimento às condições trabalhistas e de segurança no trabalho exigentes.


Oriunda de um plano de manejo certificado, a madeira certificada contribui para manter a floresta em pé em benefício das comunidades ribeirinhas e indígenas e dos trabalhadores. O custo de produção da madeira certificada é um pouco mais alto ainda do que o da madeira manejada, devido às exigências adicionais e ao custeio da certificação.


 Comprar madeira manejada : um “ato responsável” do consumidor
Quando comprar um artefato de madeira maciça, o consumidor pouco informado vai procurar o artefato de custo mais baixo, ou seja, geralmente o de madeira de desmatamento (legal ou ilegal). Isso pode até parecer lógico e legítimo por parte do consumidor quando considerar somente o seu interesse individual de curto prazo. Porém, atuando assim, o consumidor contribui ao desmatamento da floresta, com as consequências citadas acima para ele e os seus filhos.


O consumidor informado das consequências socio-econômicas e ambientais do desmatamento se mostrará preocupado em comprar uma madeira que contribui na redução do desmatamento.
Ao comprar madeira manejada, ele aceita pagar um pouco mais para reconhecer os custos adicionais relacionados ao planejamento.
Ao comprar madeira manejada, ele compra madeira e ele compra também a segurança em contribuir na redução dos impactos negativos gerados pelo desmatamento.
Ao comprar madeira manejada ele atua de forma responsável.


O consumidor mais preocupado com as condições de produção da madeira poderá se interessar em comprar madeira certificada, a um preço maior.


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 Viabilizar a “cadeia da madeira manejada”: uma responsabilidade pública
A madeira manejada chegando na mão do consumidor final é o resultado de um processo produtivo complexo que envolve vários atores, os atores da cadeia produtiva da madeira manejada : o extrator, o moveleiro, a serraria, o transportador e o consumidor propriamente dito.


A viabilização da cadeia da madeira manejada não é coisa fácil.
O extrator da madeira tem que planejar, realizar e custeiar atividades adicionais: o inventário florestal, a elaboração e protocolização do plano de manejo, a obtenção da licença de operação e das autorizações de transporte da madeira.
O moveleiro ou a serraria tem que ser convencidos de que o custo adicional da madeira manejada possa ser agregado ao preço de venda dos produtos beneficiados, pressupondo que o consumidor seja informado sobre o conceito e a disponibilidade de madeira manejada.


Um desafio maior para o poder público esta na capacidade de adaptar as normas (forma de elaboração do plano de manejo), os procedimentos (acessibilidade e desburocratização), os serviços de fomento (assistência técnica, crédito) e de controle (vistorias, licenças de operação, autorizações de transporte ) às realidades locais dos atores da cadeia da madeira.


Outro desafio para o poder público consiste em reduzir a concorrência da madeira clandestina, que evidentemente resultará numa madeira mais barata do que a madeira manejada. Isso pressupõe um esforço maior sobre a fiscalização.


A informação dos atores da cadeia e do consumidor formam um terceiro desafio para o poder público.


Esses são três desafios para o poder público, sobre os quais o Projeto Floresta Viva pretende estar contribuindo.


Fonte: Portal da Madeira Manejada

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